Foram várias as vezes que a farmacêutica Roche pediu ajuda a diversos governos para que a apoiassem num programa de prevenção contra uma potencial pandemia de gripe. O silêncio ou a negativa foram as respostas. E agora que o mundo precisa do Tamiflu, de quem é a responsabilidade?
Que "volume" de responsabilidade deve uma empresa à sociedade e em que ponto é que essa responsabilidade pode ser considerada como" dever cumprido" e dada por terminada? Estas questões constituem o objecto por excelência de um estudo de caso recentemente publicado pelo INSEAD e que não poderia ter vindo em melhor altura.
Denominado "O combate à gripe: o armazenamento do Tamiflu e a política de prevenção para a pandemia", este relatório examina as medidas tomadas pela farmacêutica suíça Roche no sentido de assegurar que existiriam quantidades suficientes da sua vacina, disponíveis em todo o mundo, caso nos encontrássemos face a uma pandemia de gripe.
Como é do conhecimento geral, o Tamiflu é um dos poucos medicamentos antivirais que permitem combater a gripe suína, ou a agora denominada gripe A, que foi detectada no México pela primeira vez a 24 de Abril deste ano e que rapidamente se alastrou a vários países do mundo.
Como afirma Luk Van Wassenhove, professor do INSEAD e um dos co-autores do estudo "este caso da Roche é de particular interesse pois coloca a empresa em causa numa situação muito particular".
Na verdade, o que o professor pretende afirmar é que o facto de a Roche ser das poucas farmacêuticas que tem uma resposta para a pandemia, acaba por colocá-la numa situação extremamente delicada. E quão complexa assim? Suponhamos que a Roche poderia ter colocado o Tamiflu no mercado, mas que não o tinha feito.
Agora imaginemos que existia (e, na verdade, existe) uma pandemia e que 50 milhões de pessoas pereceriam por não terem acesso à vacina. Obviamente que tal seria também a morte da farmacêutica.
Contudo e felizmente, a Roche tinha já tomado medidas para assegurar que o fornecimento de vacinas fosse possível, o que incluiu uma rede de produção global, cujos custos foram inteiramente suportados pela farmacêutica, para assegurar a sua utilização numa situação hipotética de procura.
E a questão que aqui se coloca é: "quanto mais é que a Roche tem de investir para fazer jus ao seu compromisso de responsabilidade social, na medida em que as empresas não são entidades filantrópicas?". Desde o início dos anos 90 que a Roche tentou que vários governos se interessassem num programa de prevenção da pandemia da gripe.
Contudo, os seus apelos caíram literalmente em saco roto.
Em 1999, o Tamiflu foi lançado a nível mundial como uma vacina para a gripe sazonal, com capacidade para produzir, anualmente, 20 milhões de doses, ainda antes dos primeiros sinais da temida gripe das aves.
Apesar da falta de interesse por parte dos governos, a Roche decidiu aumentar o seu fornecimento para 55 milhões de doses e, em 2005, os Estados Unidos pediram que a farmacêutica disponibilizasse cerca de 200 milhões de doses de Tamiflu.
Em resultado disto, a empresa decidiu elevar a sua capacidade de produção para 400 milhões de doses, tendo, no entanto, de recorrer a fornecedores credíveis em todo o planeta, num conjunto de 18 empresas em 10 países que passaram a constituir a sua rede.
A farmacêutica pagou todos os custos de implementação da rede, incluindo os investimentos de capital, actividades de transferência técnica, documentação regulatória, etc.
E agora que a empresa fez o que tinha de fazer - agindo proactivamente por causa dos riscos reputacionais a que estaria sujeita caso não o fizesse - terá de continuar a suportar sozinha os custos de manutenção da capacidade necessária ou deverá a comunidade internacional e os governos fornecerem ajuda?
Esta é apenas uma questão entre muitas sobre quão longe deverá chegar a responsabilidade da Roche até que o mundo possa estar preparado para uma pandemia da gripe A.
Por exemplo, será a Roche responsável por tornar a vacina disponível nos países pobres vendendo-a a custo mais baixo ou ministrando-a gratuitamente? Para os autores do estudo e para muitos especialistas que estiveram reunidos em Genebra recentemente, "chegará a altura em que os governos deverão arcar com a responsabilidade, bem como as comunidades locais e os próprios indivíduos".
O problema é que o mundo não está preparado para uma pandemia e, neste caso, imputar culpas à farmacêutica seria uma irresponsabilidade.
in OJE 16/06/09
Sem comentários:
Enviar um comentário