Fomentar uma relação de proximidade entre o consumidor, que compra um cabaz de produtos hortofrutícolas de qualidade, e o produtor, que escoa os seus produtos e recebe na altura o valor justo pelo seu trabalho é o objectivo do projecto PROVE. Ganha o pequeno produtor, que não vê o seu produto a ser engolido pelas grandes superfícies comerciais, e delicia-se o consumidor com frutas e legumes sempre frescos na sua mesa POR FÁBIO VENTURA in VER
Actualmente, ter a noção da origem do que comemos é apenas parcialmente possível quando fazemos compras em feiras, em mercados locais ou à beira da estrada onde existem alguns pequenos produtores que aí tentam vender o pouco que conseguem produzir em relação aos grandes produtores que abastecem em larga escala o país.
Mas, mesmo nesses locais, os pequenos produtores são uma raridade, pois a maioria é constituída apenas por vendedores que adquirem os seus produtos em grandes mercados abastecedores. Este crescente afastamento entre a produção de bens de consumo e os consumidores desses bens é uma das inúmeras consequências originadas pela globalização dos mercados, causando desequilíbrios expressivos na valorização, utilização e rentabilização dos recursos territoriais.
Para solucionar este problema que afecta dramaticamente os pequenos produtores surgiu, em 2001, o projecto PROVE – Promover e Vender, no âmbito da Iniciativa Comunitária EQUAL (a qual é co-financiada pelo Fundo Social Europeu) em parceria com várias entidades que se associaram a grupos de pequenos produtores. Neste leque de entidades constam Câmaras Municipais, associações de agricultores e de desenvolvimento local, institutos politécnicos e empresas de animação turística rural, entre outros.
O projecto tem início com três a cinco produtores agrícolas que congregam esforços e vontades para constituir um núcleo PROVE no seu território. A seguir, e de uma forma periódica, os produtores reúnem-se e organizam os cabazes de acordo com as encomendas dos clientes e com os produtos da época. As encomendas devem ser efectuadas até quarta-feira de manhã, de modo a que os produtores PROVE possam compor os cabazes para sexta-feira ou sábado. Os produtos que constituem cada cabaz são negociados com cada consumidor, bastando para tal, aceder à lista de produtos disponíveis que se encontra no site, e assinalar aqueles que nunca pretende vir a receber, enviando de seguida o formulário por correio electrónico ou entregando-o directamente nos locais existentes para a recolha dos produtos. A fase seguinte é a do dia da entrega, onde os produtores preparam os cabazes – que podem pesar de 5 kg a 9 kg com um preço aproximadamente de nove euros, – fazendo, de seguida, a sua distribuição no local seleccionado e com o compromisso de organizar cabazes com produtos variados que possam surpreender os consumidores.
A última etapa deste ciclo acontece na semana seguinte, onde os produtores se voltam a reunir para dividirem o dinheiro da semana anterior, retomando novamente todo o processo de organização dos cabazes.
Segundo declarações de Cláudia Bandeiras ao VER, Técnica do projecto PROVE e da ADREPES (Associação para o Desenvolvimento Rural da Península de Setúbal – entidade interlocutora do projecto) a problemática “assenta na existência destes pequenos produtores que não conseguem escoar as suas produções nos locais habituais de venda, originando a comercialização informal ou o abandono das terras agrícolas”. Cláudia Bandeiras justifica esta incapacidade de escoamento destes produtos como resultado de “produções desajustadas e, por vezes, com pouca qualidade, assim como uma reduzida iniciativa económica, fracos conhecimentos de gestão e marketing, e uma fraca leitura de mercado”, e acrescenta que este problema não advém apenas da parte dos produtores mas também dos consumidores que “manifestam uma insuficiente consciência das vantagens de adquirir produtos locais através de processos de comercialização de proximidade, bem como a falta de tempo, de sensibilidade ética e social, o desconhecimento de variedades hortofrutícolas locais, sua produção e utilização, e um fraco conhecimento da importância do trabalho dos pequenos produtores”.
Diagnosticar, promover e vender Antes da concretização do conceito do projecto, foi e continua a ser necessário fazer um diagnóstico de reconhecimento das pessoas envolvidas e de cada território onde o Prove se irá implementar. Este diagnóstico analisa o tipo de agricultura e produtos agrícolas produzidos, de modo a perceber o que cada produtor produz e as respectivas técnicas produtivas adoptadas nas várias épocas do ano. É também analisado o processo de venda dos produtos agrícolas, se este consiste em venda directa na exploração agrícola, em venda porta à porta, no mercado municipal ou através da venda a intermediários. O interesse e a proximidade dos consumidores com vontade em adquirir produtos locais de qualidade são também levados em conta.
No documento denominado PROVE – Contributo para um Processo Territorial de Proximidade são apresentadas as conclusões resultantes deste diagnóstico que se traduzem na “existência de três factores que impedem o desenvolvimento dos territórios rurais. São eles: a falta de associativismo e trabalho de cooperação; a burocracia instituída a nível nacional e local; a falta de coordenação entre as políticas comunitárias e nacionais adoptadas para as regiões, o que causa muitas vezes a dispersão de trabalho das entidades locais e a falta de complementaridade”.
Após o processo analítico decorrem sessões de esclarecimento e apresentação pormenorizada do PROVE entre as entidades parceiras locais e os mediadores/dinamizadores do projecto, que ajudam a implementar o projecto. Estas reuniões alargam-se de seguida aos produtores e aos consumidores, que juntos definem passo a passo as etapas deste projecto.
Ganham os produtores e os consumidores Sendo este projecto de comércio de proximidade inovador, seria normal pensar-se que a sua implementação em meio rural fosse complexa e resultasse em problemas de adesão. Porém, esta situação não se verificou. A justificação é dada pela Técnica do projecto que explica que “a metodologia criada no âmbito do PROVE foi construída em conjunto com produtores e consumidores”. Como afirma Cláudia Bandeiras, desde o início do processo de comercialização, produtores e consumidores exprimiram em reuniões e encontros as suas opiniões sobre o assunto”.
A forma como seria processada a venda directa de cabazes, o seu funcionamento, a organização e os materiais promocionais foram criteriosamente definidos. “Todos os pormenores foram pensados em conjunto, originando uma relação de confiança e uma sensação de pertença, que mobilizou desde o início produtores e consumidores”, assegura a dinamizadora do projecto.
Todavia, surgiram também algumas dificuldades, como por exemplo “a motivação dos produtores em se associarem para venderem os produtos em conjunto e a respectiva organização e logística de comercialização que teve de ser devidamente ajustada e acordada entre todos. “Neste momento, os produtores percebem a importância de unir esforços para conseguirem vender os seus produtos num cabaz de hortofrutícolas com entregas semanais”, sublinha Cláudia Bandeiras.
A adesão dos consumidores à comercialização de proximidade foi diferente, pois os primeiros que surgiram e que aderiram de imediato foram aqueles que já tinham preocupações ambientais e locais. Os restantes foram aqueles que estavam habituados às grandes superfícies comerciais e que tiveram que adaptar a sua forma de consumo e de alimentação aos produtos frescos e da época que o cabaz todas as semanas contém.
Este projecto levou também a que os consumidores tomassem conhecimento e provassem alimentos que não conheciam, como nos referiu a Técnica do projecto: “Através do cabaz PROVE muitos consumidores descobriram alguns produtos locais das suas regiões, por exemplo, a maçã riscadinha de Palmela, o melão casca de carvalho das Terras do Sousa, entre outros”.
| | O PROVE em números | | | Neste momento existem: 11 locais de comercialização em todo o país; 34 produtores envolvidos; 239 consumidores regulares; 259 cabazes PROVE transaccionados por semana; 115 hectares de terreno agrícola abrangido; 2,3 toneladas de produto transaccionado por semana. |  | |
Como já foi referido, o projecto PROVE nasceu com a ajuda financeira da Iniciativa Comunitária EQUAL em 2001, mas os cabazes só começaram a ser distribuídos em Junho de 2006. As zonas de implementação incluem as regiões de Sesimbra, Palmela, Lousada, Penafiel, Paços de Ferreira, Paredes, Montemor-o-Novo, Ericeira e Gradil. Contudo, mesmo tendo terminado o apoio em Junho deste ano, o projecto encontrou mecanismos de sustentabilidade para continuar a existir, funcionar e a ser implementado em outras zonas rurais nas periferias das cidades do nosso país. Como afirma Cláudia Bandeiras, “neste momento consideramos que o PROVE é já um projecto de âmbito nacional, uma vez que está a ser desenvolvido na Península de Setúbal, Vale do Sousa, Alentejo Central e Região do Oeste”.
Como é óbvio, os benefícios deste projecto são duplos: não só para os consumidores que, para além de adquirirem produtos de grande qualidade através deste comércio de proximidade, entram em contacto com os próprios produtores, mas também para as entidades que adoptam esta metodologia, na medida em que têm acesso a uma nova intervenção territorial.
Este projecto potencia um aumento da competitividade das zonas rurais ao facilitar uma maior interacção entre a área rural e a urbana, dando lugar ao surgimento de outras actividades geradoras de riqueza e, consequentemente à criação de emprego nessas mesmas áreas. |
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