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quinta-feira, 21 de maio de 2009

De mãos dadas pela coesão social

De mãos dadas pela coesão social

Reinventar a solidariedade (em tempo de crise) mais não é do que recuperar o sentido de participação cívica, concluíram os especialistas presentes no simpósio promovido, a 15 de Maio, em Lisboa, pela Conferência Episcopal Portuguesa. Um banco de ideias pode constituir um primeiro passo para (re)encontrar o essencial: a coesão social
POR GABRIELA COSTA in VER

Na actual conjuntura, que impõem um modelo de desenvolvimento holístico e integrador das diferentes dimensões da sociedade humana – económica, social, ambiental e cultural –, a solidariedade deve ser entendida num sentido sistémico, articulando com equilíbrio os conceitos e práticas ligados à sustentabilidade, ética, política e comunicação social. Neste contexto, reinventar a solidariedade mais não é do que recuperar o sentido de participação cívica, concluíram os especialistas presentes no Simpósio promovido, a 15 de Maio, em Lisboa, pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP). Nas propostas para o futuro apresentadas no final do evento por Joana Rigato, da Comissão Nacional Justiça e Paz, a actual crise económica e social foi também reconhecida como uma crise civilizacional, de índole ética e moral. É, pois, necessário procurar “soluções estruturais para [resolver] problemas estruturais".

Integrada nas comemorações dos cinquenta anos do monumento a Cristo Rei, a iniciativa “Reinventar a Solidariedade (em tempo de crise)" procurou traçar o diagnóstico da actual conjuntura e encontrar novos modelos de desenvolvimento, associados a novas formas de solidariedade. A ideia base foi promover a interpelação da sociedade portuguesa, convocando os cidadãos para uma reflexão profunda sobre o futuro da solidariedade, sem prejuízo da manutenção do apoio imediato, através da fórmula assistencialista. Para o comissário do evento, João Menezes (presidente da TESE), “uma resposta não é a única razão que suscita o simpósio. Há uma razão mais estruturante: questionarmos os modelos de desenvolvimentos actuais, na certeza que a crise pode ser uma oportunidade para um futuro modelo que seja mais humano e solidário, mais criativo e também mais participativo”. O simpósio constituiu um espaço para fazer um “retrato muito próximo da realidade que se vive hoje, marcada por focos de pobreza e de grandes dificuldades”, através da actividade das várias estruturas ligadas à Igreja, desde centros sociais paroquiais, Cáritas, misericórdias e centros de S. Vicente de Paulo.

O Homem no centro (dos valores)
A ausência de valores como causa inerente à crise internacional foi uma das ideias que marcou a abertura do simpósio, que esteve a cargo do presidente da CEP, o Arcebispo D. Jorge Ortiga, e de D. Oscar Rodríguez Maradiaga, Cardeal Arcebispo de Tegucipalga (Honduras) e presidente da Cáritas Internacional. Alertando para a gravidade social que o país enfrenta, o presidente da CEP sublinhou duas consequências antagónicas da crise: as situações de pobreza envergonhada (“há um número de pessoas que têm vergonha de mostrar a situação em que se encontram”, lembrou) e os “muitos parasitas que se aproveitam da crise e que vivem às custas da crise”. 

Urgente é combater o actual quadro de pobreza através da solidariedade, defendeu D. Jorge Ortiga: “a raiz da actual situação não é meramente económica. A ausência dos valores e a pretensão de viver como se Deus não existisse não podem deixar de ser equacionados para chegar a uma sociedade digna do Homem através do exercício da solidariedade, iluminada pelo primado da caridade”.

Concordando com o presidente da CEP – a resolução da crise “não passa apenas por soluções económicas”, aliás, “a economia sofre com uma má definição do ser humano, com uma má concepção da humanidade” –, D. Óscar Maradiaga mostrou-se, contudo, mais optimista, sugerindo mesmo que há males que vêm por bem. Para o presidente da Cáritas Internacional, perante um cenário global que está a "criar um mundo onde a ganância coloca à margem da história muitas pessoas e está a produzir a exclusão”, a difícil realidade que a humanidade atravessa “poderá traduzir-se numa grande oportunidade para recolocar o Homem no centro da procura de soluções”, acredita. Para o Cardeal de Tegucigalpa, é hoje um imperativo questionar “o sentido da vida e a ideia de humanização”, conceitos centrais sem os quais “não há resposta adequada para a crise”. Razão pela qual a cimeira do G20, realizada recentemente em Londres, “pretendeu estudar para lá da retórica, mas apenas algumas insinuações foram no caminho certo”, na sua opinião.

Ideias felizes e com imaginação
Traçado o diagnóstico da crise - a economia portuguesa sofre um nível de desemprego na ordem dos nove por cento e o endividamento externo pode chegar a cem por cento do PIB -, várias personalidades dos planos social, político, económico, religioso, académico e associativo procuraram apontar pistas e ideias para o futuro do Desenvolvimento, da Economia e da sociedade. Reforçar a assistência e a caridade, num combate mais eficaz à pobreza; apostar na inovação social; reconhecer o papel primordial dos Media; criar oportunidades para a gestão empresarial, nomeadamente ao nível das PME, que constituem a quase totalidade do tecido empresarial português; traçar novas políticas para a solidariedade e uma cultura de humanização, aumentar a cidadania... muitos são os caminhos a percorrer, em prol da coesão social.

Esta é, pois, fundamental, para que “o futuro seja mais sorridente”, como defendeu, à margem do encontro, D. Carlos Azevedo. Apelando ao entendimento dos partidos, o Bispo Auxiliar de Lisboa avisou que, mesmo sem Bloco Central, “é altura para que haja uma centralidade do país nas nossas decisões".

Por sua vez, no encerramento do simpósio “Reinventar a Solideriedade”, o Cardeal Patriarca de Lisboa sublinhou que a dignidade de cada um deve ser a grande prioridade da sociedade. “Aquilo a que chamamos desenvolvimento só pode ser valorização progressiva do Homem e dos seus enquadramentos fundamentais: a família, o trabalho, a co-responsabilidade comunitária”, concluiu. Para D. José Policarpo, “a humanidade de hoje exige e reclama que tudo esteja ao serviço do Homem - a política, os sistemas económicos, a organização social -, na igualdade absoluta de todos em dignidade e no direito de participar e partilhar a construção desse mundo novo”.

Numa iniciativa do comissariado do simpósio, ideias simples e imaginativas para promover essa igualdade, reinventando a solidariedade, foram chegando, nos últimos dias, ao site do www.reinventarasolidariedade.org. O jornal Público associou-se à causa e pediu a algumas personalidades de diferentes áreas para fazerem o mesmo. 

Banco social para combater a pobreza
Mobilizar os activos financeiros não reclamados nos bancos para o combate à pobreza foi uma das sugestões apresentadas no simpósio "Reinventar a Solidariedade". O projecto já funciona em Inglaterra e deu origem à criação de um banco social. Como explica João Menezes, naquele país “existem dezanove mil milhões de euros em activos não reclamados e de carácter financeiro, isto é, contas bancárias não movimentadas há mais de 20 anos, juros de obrigações, dividendos de acções, prémios de seguros e certificados de aforro não reclamados e que, no fundo, pertencem à sociedade, não pertencem aos balancetes dos bancos, das seguradoras, das instituições em que estão perdidos”.

Transpondo esta medida para a realidade nacional, o comissário do simpósio “ Reinventar a Solidariedade (em tempo de crise)” acredita que, em Portugal, mil milhões de euros seriam suficientes para se fazer uma “revolução ao nível da coesão social”. A ideia, que já foi apresentada ao Governo, merecendo a sua aprovação, ainda não está operacionalizada.

Aumentam pedidos de ajuda
Nos primeiros cinco meses deste ano, algumas Dioceses receberam tantos pedidos de ajuda como em todo o ano de 2008, denunciou o presidente da Cáritas Portuguesa, à margem do encontro: “em algumas dioceses já foram atendidas mais situações novas entre Janeiro e Maio do que no ano todo de 2008. Recordo-me que essa referência foi feita por Beja, pela Guarda e Setúbal também está a crescer”, disse, citado pela Renascença. Face a esta realidade, Eugénio Fonseca defende que haja uma maior articulação entre as paróquias em todo o país.

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